sexta-feira, 6 de julho de 2012

Fim da VOR

Prá tudo se acabar na quarta-feira, ou a crônica de um carnaval sem alegria nos mares do mundo.
MURILLO NOVAES
Na legendária Fastnet, a pedra mais famosa do mundo Vela, o Groupama fica bem na foto. Com o segundo lugar em Galway, justamente atrás do Camper, o baixinho Franck Cammas mostrou mais uma vez porque é um dos grandes da Vela mundial. Allez les bleus!!

Bem querido amigo e leitor, eis que chega ao fim mais um périplo global daquela que já foi a saudosa Whitbread, virou Volvo Ocean Race e também atende pela alcunha de regata de volta ao mundo. Quer dizer... Ao fim não chegou, porque nas irlandesas terras (águas) de Galway a quermesse comercial de promoção de marcas ainda vai correr uma regata de porto que não vale absolutamente nada.
Até poderia valer, se houvesse diferença menor que seis pontos entre quaisquer posições da tabela. Mas, como a diferença entre posições (de primeiro para segundo, segundo para terceiro, etc.,etc.) nas pernas oceânicas é de 5 pontos, você pode perceber a ironia, né? Ou seja, depois de inventar uma "largada" de regata de volta ao mundo que não vale nada, na verdade, uma regata de porto em Alicante, os caras conseguiram inventar uma "chegada" que também não vale PN...
E isso representa muito do que se tornou esta plataforma de marketing que outrora foi uma regata oceânica das mais respeitadas. Com foco, claro, como manda a cartilha do capitalismo pós-moderno, no ROI, o famoso retorno sobre investimento no acrônimo em inglês, dane-se o resto. Barcos, tripulações, corações, mentes, tudo é apenas um elo da grande corrente que visa dar visibilidade global às marcas de consumo que colocaram seus preciosos dinheiros na coisa toda.
E este sequestro da alma da regata, que inverte a lógica de tudo: não são os aventureiros que , com seu grande desafio, "enobrecem" e divulgam as companhias que os apoiam, mas sim as companhias que, com suas necessidades comerciais e de promoção, submetem os aventureiros a todo tipo de constrangimento. E nesta lógica perversa (e ousaria até dizer, burra) a Vela está sempre em segundo plano.
Sendo assim, nossos grandes navegadores não devem ir muito ao sul (é perigoso), não devem passar perto do chifre da África (é perigoso), devem aguardar a meteorologia ficar boa e largar para atracar de novo logo ali na frente (é perigoso) e não devem puxar muito os barcos (porque estes quebram - e como! -, e é perigoso). É algo como subir o Everest de botinhas ortopédicas, roupa aquecida, serviço à francesa e oxigênio em abundância. Mas com patrocínio, claro. E justamente tirando a aventura da aventura, fica difícil segurar os níveis de interesse e audiência, mesmo com toda a bem azeitada e profissional máquina de comunicação/promoção disponível.
Com isso, não pretendo e não devo retirar o mérito dos nossos amigos que, mesmo assim, arriscam seus pescoços nos oceanos do mundo nos emocionantes bólidos VO70. Nem quero parecer ingrato, porque, com muito orgulho e prazer, fui mestre de cerimônias nas duas últimas edições da regata no Brasil. Como amigo pessoal do Alan e do Enio, organizadores do stopover em Pindorama, do Knut, CEO da regata, da Sophie, coordenadora de comunicação, e de tantos outros envolvidos, uso esta tribuna digital apenas como um alerta. Do jeito que a coisa vai, o abismo é inevitável.
Claro que todos os méritos devem ser dados a Franck Cammas e sua tripulação, que mostraram porque os franceses são os maiores velejadores de oceano do planeta e, depois de conquistar o Troféu Júlio Verne, a volta ao mundo mais rápida (recorde já batido por Loick Peyron), conseguiram virar um jogo que parecia completamente ganho pela turma espanhola com sabor brasuca do Telefônica. Telefônica, este, aliás, que novamente mostrou tremenda falta de sorte e conseguiu despencar do topo, para fora do pódio no epílogo do Atlas. Joca e Horácio não mereciam isso!
Agora, o futuro aponta para novos barcos de 65 pés, monotipos, que vão custar aproximadamente, completos, 5 milhões de Euros cada (a campanha inteira deve ficar em 15 milhões de Euros) e, com isso, se espera um mínimo de 10 times na próxima edição. Pode ser que dê certo. Torço para isso. Mas se pensarmos que em plena crise europeia, a Vendée Globe (simples: volta ao mundo, solitário, sem paradas e sem assistência) deste ano já tem 19 Open 60' inscritos, vemos que algo está estranho no futuro da VOR.
E, sinceramente, este carnaval sem samba está cada vez mais com cara de quarta-feira de cinzas.
Fui!!!
(postado na Coluna do Murillo:Notícias da Vela)

2 comentários:

  1. Interessante apreciação da VOR, dá uma noção do que se passa por dentro da regata.

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  2. Jacqueline Goulart6 de julho de 2012 04:11

    Muito bom. O Murillo Novaes é jornalista de verdade.

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