domingo, 8 de maio de 2011

Anotações de uma Navegada

Saímos de Pelotas, a bordo do Relax, rumo a Tapes tendo como um dos objetivos levar o veleiro de volta. De minha parte tenho especial interesse em voltar à Barra Falsa onde só estivera uma única vez, há uns bons anos, trazendo o veleiro Vega, com o Pepe ao comando. Sem gps cabe salientar.

O bom das navegadas é que comecem cedo, ao amanhecer.
É quando podemos zarpar um pouco furtivamente, enquanto o movimento de terra ainda não se manifesta , no caso das cidades o movimento das pessoas e dos automóveis, no caso da natureza, dos próprios animais que, embora madrugadores como as aves, também só aos poucos começam a assomar.
O silêncio de navegar à vela pode ajudar bastante neste sentido.
Mas mesmo com o motor ligado, em marcha lenta, zarpar e ir tomando lentamente o rumo de nosso destino, sempre terá algo que fugindo um pouco ao nosso entendimento fará com com que nos sintamos mais próximos das coisas mais essenciais da vida. Será isto uma dos atrativos que levam os homens a navegar?

No caminho cruzamos com poucos barcos. Muito poucos. A lagoa parece vazia. Em todo o trajeto apenas uns dois barcos de pesca, nenhum veleiro. Ou, então, também por duas vezes, com estas chatas que fazem transporte entre Rio Grande e Porto Alegre.
Na foto uma delas pela qual passamos bem próximos.
Não lembro se acenamos. Creio que sim, mas dentro do barco mal podemos perceber a presença de alguém. Seria um barco fantasma?

O Comandante Portinho fiel à sua formação de velejador não dispensa armar as velas.
Neste momento , ei-lo prestes a subir a mestra.
Pareceu-me um bom momento de fotografá-lo. Chegar na Barra Falsa, embora seja apenas a metade da navegada, é como se fôsse o seu ápice. O lugar, sem dúvida, é uma das referências mais importantes para quem navega na Lagoa dos Patos dividindo esta condição, na costa leste, com o Porto do Barquinho. A entrada, contornando o banco e respeitando os waypoints (*) é feita com cuidado. O cenário é magnífico.
Na foto, ao fundo , os silos do engenho que dão, quando se chega mais próximo, talvez pelo porte e pelo tom gris , uma sugestiva, quase grave , pincelada neste cenário .

No segundo dia de viagem, quando a noite chega estamos entrando no Saco de Tapes.
"O pátio de casa" diz o Comte.Portinho.
Antes disto, nas proximidades do Banco dos Desertores, um susto.
Por questão de poucos metros , no máximo uns dois, não investimos contra uma rede.
Esperando a sua presa, que é o peixe, mas que por pouco não se transforma num veleiro com dois tripulantes.

Já na manhã do dia seguinte, domingo, a calma e a ausência de qualquer movimento nos trapiches do Náutico Tapense, só vão ser interrompidas pela chegada de um ativo funcionário do clube. Quando passo pelo trapiche ele, que se ocupa em tirar água de um bote , pergunta-me a que horas tinha sido nossa chegada. Deduzo que se trata do marinheiro Baiano, na realidade um lourenciano, com quem tínhamos mantido contato por rádio, na véspera, para anunciar a chegada e ter informações sobre a existência de redes. A informação que nos deu foi que dentro do Saco não as havia. A que encontramos, antes dos Desertores, fugia à sua jurisdição e, portanto, à sua responsabilidade. O Baiano está certo, embora a barba bíblica e o controle que demonstra ter sobre tudo que se passa nos trapiches e nas águas daquela região da Lagoa, ele não é onisciente nem é Deus.
(*) Waypoints indicados pelo Comte. Adriel da Silva (King's Son):
FALSA-4 (Passa banco) - S31 33.095' W51 28.506'
FALSA-3 (Entra no canal) - S31 33.388' W51 28.136'
FALSA-2 (No canalete) - S31 33.600' W51 27.995'
FALSA-1 (Dentro, no fundo) - S31 34.333' W51 27.898'
((Coordenadas em graus minutos e minutos - WGS 84))

5 comentários:

  1. João Luis Cunha11 de maio de 2011 11:16

    Bacana tanto o passeio quanto as anotações.
    Sobre as redes de pesca, o assunto é bastante complicado. Enquanto não houver um amplo diálogo entre pescadores e navegadores sobre a sinalização das redes ou talvez adoção de novo modelo de sinalização, a preocupação por onde se possa navegar ou não navegar sempre existirá. O respeito deveria ser mútuo; o pescador sinaliza corretamente as redes e não as insere em local proibido como, por exemplo, canais de navegação e zonas marginais, evitando assim possível rompimento de seus instrumentos de trabalho e sustento por parte dos navegadores quando estes se encontram 'fisgados' pelas referidas redes. Acreditamos que a discussão é oportuna e válida sendo que ambos sairiam ganhando.
    Em relação a sinalização náutica na lagoa mirim, acreditamos ser uma questão de tempo a requalificação da referida sinalização pois os trabalhos de implantação do corredor hidroviário denominado Hidrovia do Mercosul estão em franco desenvolvimento no Ministério dos Transportes. No lado uruguaio, os trabalhos para implantação de dois terminais fluviais de cargas parecem estar mais acelerados. No lado brasileiro, estão previstos novos portos fluviais, dragagem do canal de são gonçalo, do sangradouro da lagoa mirim e seu canal de acesso e ainda implantação de sinalização náutica.
    Aguardemos o desfecho e torcemos para que este projeto seja realmente implantado.

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  2. A bem da verdade as redes às quais me refiro estavam balizadas mas a sua visibilidade não era boa. Suspeito que tenhamos avançado muito rapidamente pois, embora atentos à sua presença, só foi possível distinguir a exata localização quase sobre elas. A tê-las abalroado, no momento em que corriamos contra o tempo para não avançar muito na noite, este relato certamente teria outro teor.

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  3. Li agora o relato. Belo...particularmente a finalização.
    Você é um otimo cronista.
    Espero que a viagem tenha lhe feito bem.

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  4. Obrigado pelo olhar literário... mas nem se trata de um relato mas apenas de anotações.

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  5. João Luís, deu uma pane no blogger e ficaram perdidas algumas coisas, inclusive comentários. Retomo, portanto, algo do que tinha escrito. A questão das redes de pesca é antiga e, até hoje, não foi encontrada uma solução satisfatória. No caso da rede que encontramos a bem da verdade foi possível avistá-la de longe pois estava sinalizada com bandeirolas. Na aproximação é que ficou difícil saber sua orientação a não ser quando estávamos muito próximos. Mas me pergunto se esta aproximação não foi rápida demais.

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